Hi again,
I found this interview with Fritz D'Orey at Forix site, but it's in portuguese
Maybe inside the english forix you could find the english version.
Saludos
Ric
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Em maio de 2002, o ex-piloto Fritz d'Orey conversou com a equipe do FORIX em sua belíssima cobertura no Rio de Janeiro, de frente para o mar, em Copacabana. Durante uma hora e meia, d'Orey lembrou momentos marcantes de sua curta carreira - período em que teve a oportunidade de disputar três provas na Fórmula-1 - e também dos grandes pilotos dos anos 50 e dos muitos amigos que fez naquela época.
Afastado das corridas desde um terrível acidente nas 24 Horas de Le Mans, em 1960, d'Orey nutre hoje outra paixão além do automobilismo: os computadores. Há mais de vinte anos, tornou-se um fã orgulhoso da Apple, possuindo uma invejável coleção de computadores da marca mundialmente famosa.
Nesta entrevista exclusiva, d'Orey diz que o automobilismo que conhecemos hoje em nada se parece com a época vivida por ele, quando as corridas eram disputadas apenas pelo prazer de correr e o dinheiro era apenas uma conseqüência disso. "Naquele tempo, os pilotos eram seres humanos e os carros eram vistos de perto pelas pessoas. Não é como acontece hoje".
FORIX - Como surgiu seu interesse pelo automobilismo?
Sempre gostei muito de automóveis, desde criança. E nessa época eu ia sempre a Interlagos, aos sábados. Todo mundo ia para lá naquele tempo. A pista era aberta e todo mundo levava seus carros de passeio. Aos 17 anos, fiz minha primeira corrida, com um Jaguar XK. Mas minha vida de piloto durou apenas cinco anos, pois aos 22 sofri um grande acidente, que acabou me tirando das pistas.
FORIX - Tua família te apoiava naquela época?
De jeito nenhum, porque antigamente era um perigo mortal. Morria alguém todo fim-de-semana em Interlagos, e, claro, não havia nenhuma segurança, nada de guard-rails.
FORIX - O que movia vocês então era pura paixão pelo esporte...
Sim, porque correr de automóvel era e ainda é uma sensação muito gostosa. Nem é a competição em si, mas o prazer de acelerar um carro de corridas.
FORIX - O que era correr pela Ferrari naquela época, sendo você tão jovem em relação aos demais? E como ocorreu sua contratação pela equipe?
Na Fórmula-1, eu corri pela Maserati, a convite do Fangio. Foi ele quem me levou para correr na Europa, pela Scuderia Centro Sud. A BP (British Petrolium) estava patrocinando e o Fangio ia levar um brasileiro, um uruguaio e um argentino para lá. O uruguaio era o Asdrubal Fontes Bayardo, mas não me recordo do nome do argentino. Mas dos três, o único que correu na Formula-1 fui eu. Os outros ficaram só nos testes.
Eu estava acostumado a correr com uma Ferrari 51, a mesma que o Chico Landi ganhou do presidente Getúlio Vargas para correr. Disputei algumas provas com ela e, depois disso, a Ferrari me chamou para assinar um contrato. Eu já tinha disputado os GPs da França, da Inglaterra e dos EUA antes disso, e depois de ter assinado o contrato, disputei também as 12 Horas de Sebring e as 24 Horas de Le Mans, onde tive o desastre que acabou com a minha carreira.
FORIX - Em relação às contratações, era muito diferente do que ocorre hoje? Como funcionava? A contratação era para uma temporada inteira ou somente algumas provas, dependendo do piloto?
Naquela época, ninguém ganhava muito dinheiro. Havia corridas em todos os lugares, de todas as categorias, e os pilotos não ganhavam salário das fábricas e sim prêmios de largada. Os organizadores davam uma determinada quantia de dinheiro, dependendo do prestígio do piloto, e a gente vivia com isso, que só dava para pagar o hotel, a alimentação e as viagens.
FORIX - Mas e os campeões?
Mesmo um campeão, não ganhava tanto como agora. Era só o prazer de correr que nos levava a continuar nessa vida. Dava para se sustentar, sem precisar passar fome. Naquele tempo, os pilotos eram apenas seres humanos, os carros eram vistos de perto pelas pessoas. Não é como acontece hoje. A liberdade que tínhamos antes era total.
FORIX - Já havia assédio dos fãs naquela época, mesmo vocês não sendo milionários como os pilotos de hoje?
Ah, tinha. Antigamente nós éramos vistos heróis. Hoje, os pilotos são todos muito protegidos, com guarda-costas, essas coisas. Muita coisa mudou de lá para cá, mas já naquela época os pilotos tinham muitos fãs atrás deles.
FORIX - E como era o perfil do chefe de equipe nos anos 50?
Não era uma coisa profissional como conhecemos hoje. Ele era apenas o dono dos carros e nunca dava ordens para um piloto andar mais rápido do que o companheiro de equipe. Cada um andava o mais depressa que podia, e se cometesse algum erro, corria o risco de não disputar a corrida seguinte.
Para se ter uma idéia de como as coisas eram feitas, o chefe da equipe chegava e dizia a um piloto: "Vai haver um Grande Prêmio em tal lugar. Você quer ir lá e correr para mim?" E então a gente perguntava de quanto era o prêmio de largada. Dependendo da grana, a gente ia lá disputar e recebia um adiantamento para bancar as despesas da viagem. Não havia contrato, era tudo um acordo de amigos.
FORIX - Dos pilotos que você conheceu quando correu na Europa, quem era o mais antipático e quem era o mais amigo?
Meu maior amigo era o Wolfgang von Trips, com quem eu morava junto, em Modena, na Itália. E infelizmente ele morreu em 61, naquele acidente em Monza, onde também morreram alguns torcedores. Os mais antipáticos, na minha opinião, eram os ingleses. O Stirling Moss, por exemplo, era uma pessoa muito desagradável, convencido, que se achava o máximo. Já os italianos eram extremamente simpáticos. O Luigi Musso era um deles. Morreu em 58, mas eu cheguei a conhecê-lo; o Eugenio Castellotti também. Hoje, na Fórmula-1 atual, infelizmente os pilotos mal se falam.
FORIX - Havia brigas internas entre dois pilotos de uma mesma equipe, como acontece agora?
De forma alguma. Primeiro, porque todo mundo era mais amigo um do outro. E a coisa era tão perigosa que todos se ajudavam e ninguém ousava se arriscar ao extremo, porque sabia que se fizesse isso, corria o risco de morrer e ainda levar alguém junto. Nos bastidores, nunca vi uma briga, porque a maior parte deles eram verdadeiros gentlemen, pessoas muito agradáveis e extremamente gentis. Isso porque muitos deles vinham de famílias bem-educadas, representavam a elite européia, com raríssimas exceções.
FORIX - No Brasil, houve muita repercussão na imprensa pelo fato de você ter sido um jovem correndo no meio de tantas feras do automobilismo, mais velhas que você e mais experientes, como Ciro Cayres e Camilo Christófaro?
Sem dúvida. A coisa chegou a tal ponto que houve uma época em que eu saía em capas de jornais o tempo todo.
FORIX - Por causa disso, chegou a ser alimentada algum tipo de rivalidade entre você e algum desses pilotos, como a que vimos, por exemplo, entre Senna e Piquet nos anos 80?
Não, não havia. E sobre essa questão entre o Senna e Piquet, a coisa toda estava no caráter de cada um deles. O Piquet era um cara super invejoso e o Senna já pertencia a uma época mais moderna, movida a milhões e milhões de dólares. E o Piquet estava atento a isso. Quando o Senna surgiu, isso apagou um pouco o brilho dele.
Na minha época, as dificuldades faziam com que fosse mais difícil acontecer esse tipo de coisa. Os carros não eram iguais, a mecânica era bem diferenciada e você corria cada fim-de-semana com carros diferentes, em categorias diferentes. Era tudo muito difícil de dirigir, porque a direção era muito pesada. Eu pilotei um Fórmula-1 em 1972 e senti uma diferença enorme, com tudo macio.
FORIX - E que carro foi esse?
Foi a Lotus 72, do Emerson Fittipaldi.
FORIX - E seu acidente em Le Mans, em 1960? Como aconteceu?
Foi no meio da reta. Meu carro saiu da pista e bateu numa árvore, completamente de lado. O carro partiu-se ao meio e eu fiquei jogado no meio da pista. Por conta disso, passei oito meses internado num hospital e minha carreira acabou aí.
FORIX - E o que você fez quando deixou o hospital?
Voltei para o Brasil e vim trabalhar nas empresas do meu pai, uma construtora e uma revendedora de automóveis. Fiquei trabalhando nisso até ele morrer, eu fechar as empresas e me aposentar.
FORIX - Você nunca mais teve contato com o automobilismo depois disso?
Eu me afastei totalmente das corridas após o acidente e nunca mais fui a um circuito. Passei a assistir as corridas somente pela TV.
FORIX - Quais os pilotos que você mais admirou durante essa época e como você os compara com os de hoje?
Admirei muito o Emerson Fittipaldi, o primeiro grande piloto brasileiro, o precursor de tudo. Ele foi o máximo para mim. Costumo dizer que automobilismo é uma serie de coincidências. Veja o exemplo do Barrichello, que anda muito, mas nunca teve a sorte de estar na hora certa, no lugar certo, ter o melhor carro, exatamente o que aconteceu com o Senna. E eu fico tentando descobrir se o Senna andava mais que o Barrichello. Eu acho que não. Para mim, isso tudo está relacionado às coincidências, enquanto as pessoas chamam de sorte.
FORIX - Pista mais desafiadora e melhor carro?
Sem dúvida alguma, Nürburgring, porque essa era uma pista ameaçadora mesmo. Para correr numa pista daquelas, com aqueles carros, com pneus fininhos e tão pouca estabilidade, você tinha que ser, literalmente, muito macho. Quanto ao carro, o melhor que conduzi, na minha opinião, foi uma Ferrari, em treinos particulares.